Trump e o alto preço de abandonar aliados histórico e isolar os EUA

Feb 2, 2026 - 23:00
 0  0
Trump e o alto preço de abandonar aliados histórico e isolar os EUA

A decisão de Donald Trump de mudar radicalmente a política externa transatlântica parece causar uma das maiores quebras de paradigmas na geopolítica global desde a queda da União Soviética e pode ser um erro estratégico dos Estados Unidos para o longo prazo.

O período pós-Segunda Guerra Mundial e a formação da OTAN em 1949 deram nascimento a um sistema de governança global baseado em uma política externa realizada de maneira consistente e consequente. A reconstrução da Europa Ocidental com o Plano Marshall garantiu, através de uma política de ganha-ganha, a estabilidade econômica no velho continente ao mesmo tempo que pavimentou as estradas de uma fidelidade ideológica fundamentada em valores comuns das democracias liberais.

Os 13 bilhões de dólares utilizados para reerguer a Europa das cinzas representaram trilhões de dólares em comércio multilateral em quase oito décadas e permitiram aos norte-americanos acesso exclusivo às regiões geoestratégicas do Atlântico, Mediterrâneo e Ártico, não apenas para proteger seus interesses militares, mas também para frear os ímpetos soviéticos nas mesmas localidades.

Apesar do binarismo que permeia a política norte-americana, sempre dividida em duas vertentes, republicanos e democratas, conservadores e liberais sempre fizeram de tudo para não apenas preservar, mas também fortalecer os vínculos entre Estados Unidos e Europa. Por muito tempo essa foi uma constante incontestável para o Departamento de Estado e para a Casa Branca que viam nesta aliança as razões para uma América forte economicamente e segura militarmente.

Todavia, nada dura para sempre, nem mesmo os conceitos considerados mais sólidos em uma política de estado. No caso em questão, Donald Trump, com caráter disruptivo seria, a figura que derrubaria o primeiro dominó da
sequência que acarretaria uma reação em cadeia ainda com consequências imprevisíveis.

A ideologia MAGA (Make America Great Again) traz nuances bastante específicas em relação à política externa. A visão isolacionista de um Estados Unidos autossuficiente e sem necessidade de interação com o mundo é predominante, mas contrasta internamente com setores ideológicos que defendem práticas mais arcaicas como o protecionismo econômico exacerbado e até mesmo determinadas formas de expansionismo territorial.

Essa dicotomia interna talvez seja o ponto de maior dificuldade para que diplomatas, políticos tradicionais e cientistas políticos consigam interpretar as ações e pretensões do mandatário norte-americano. Ao mesmo tempo que Trump busca isolar os Estados Unidos do mundo, também faz de tudo para alienar os aliados mais próximos.

O caso europeu é uma problemática em constante desenvolvimento durante o último ano. A aproximação de Donald Trump a Vladimir Putin e o abandono gradual da Ucrânia serviram como sólidas razões para os países Bálticos, a Romênia e até mesmo a Polônia se afastarem dos interesses norte-americanos e questionarem suas intenções na mediação de um plano de paz entre ucranianos e russos.

O tarifaço aplicado sobre toda a União Europeia afastou aliados ainda mais próximos dentro do próprio bloco Ocidental como a França, Alemanha e Itália. Por fim, a cruzada lançada por Trump para conquistar a todo custo o território dinamarquês da Groenlândia acabou por afastar os países nórdicos e outras nações menores completando a lista.

Atualmente a Europa se vê forçada a olhar para outros rincões do planeta para suprir a ausência norte-americana. Recentemente foi assinado na Comissão Europeia o acordo de livre comércio com o Mercosul, além de um acordo muito similar com a Índia. Muitos países têm estreitado suas relações bilaterais com a China e olhado de forma mais detalhada para as nações do Oriente Médio individualmente.

Em um mundo de cadeias de produção globais e onde as políticas de ganha-ganha foram as mais bem sucedidas na história, pensar em economia e política externa como jogo de soma zero pode acabar custando caro. É incontestável a pujança da inovação norte-americana, a robustez de sua economia e a enorme falta que tem causado às economias europeias, mexicanas, canadenses, australianas etc. Entretanto, a necessidade criada para suprir esse vazio criado por Trump, pode acabar fortalecendo adversários estratégicos no médio e longo prazo, além de criar uma fratura na confiança entre as partes que será difícil de se consertar.

O caminho ainda é incerto, apenas um ano de mandato se passou, mas é fato que em janeiro de 2029 quando a Casa Branca tiver outro inquilino, as relações transatlânticas serão totalmente diferentes.

Qual é a sua reação?

Como Como 0
Não gosto Não gosto 0
Amor Amor 0
Engraçado Engraçado 0
Nervoso Nervoso 0
Triste Triste 0
Uau Uau 0