Irã pode ficar fora da Copa do Mundo após ataques? Entenda o cenário

A guerra no Oriente Médio, desencadeada por ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, abriu uma nova frente de incerteza fora do campo militar: a possível participação da seleção iraniana na Copa do Mundo deste ano, que terá jogos da fase de grupos em território norte-americano.
A hipótese de boicote ao torneio foi levantada no próprio país. Poucas horas após o início dos ataques conjuntos, no sábado (28), o presidente da Federação Iraniana de Futebol, Mehdi Taj, afirmou à televisão estatal que, diante do cenário, não há como ter esperança de disputar o Mundial.
“O que é certo neste momento é que, com este ataque e esta crueldade, não podemos ter esperança de participar da Copa do Mundo”, declarou. Taj também anunciou a suspensão do campeonato nacional iraniano.
Conhecida como “Team Melli”, a seleção do Irã garantiu vaga em março do ano passado para sua sétima participação em Copas do Mundo, a quarta consecutiva. A equipe está no Grupo G, ao lado de Bélgica, Egito e Nova Zelândia, e tem duas partidas programadas para Los Angeles e uma para Seattle.
Los Angeles abriga uma grande comunidade iraniana desde a Revolução Islâmica de 1979. Parte significativa dessa diáspora apoiava a dinastia Pahlavi, derrubada pela revolução.

Presidente da Federação Iraniana de Futebol, Mehdi Taj
Posição da FIFA
A FIFA tem adotado cautela diante do cenário. O secretário-geral da entidade, Mattias Grafstrom, afirmou que é prematuro comentar em detalhes, mas garantiu que a organização acompanha os desdobramentos.
Uma fonte próxima à entidade indicou que, até o momento, não houve conversas formais com a federação iraniana sobre eventual desistência.
A situação se torna ainda mais delicada porque, nesta terça-feira (3), marca a contagem regressiva de 100 dias para a abertura do torneio. O contexto pode gerar desconforto ao presidente da FIFA, Gianni Infantino, que tem demonstrado interesse em manter uma relação próxima com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
O conflito também atinge outros países do Golfo que participarão da Copa. Arábia Saudita, Catar e Jordânia foram alvos de ataques retaliatórios iranianos, ampliando o impacto regional da crise.

Donald Trump e o presidente da FIFA, Gianni Infantino, com o troféu da Copa do Mundo
O que dizem os regulamentos
Os regulamentos da Copa do Mundo não preveem expressamente a possibilidade de boicote por parte de uma seleção já classificada. Segundo fonte próxima à FIFA, decisões específicas teriam de ser tomadas para substituir o Irã, se necessário.
O Artigo 6º do regulamento da Copa de 2026 estabelece que, em caso de retirada por motivo de força maior, caberá à FIFA decidir sobre o assunto a seu exclusivo critério e adotar as medidas que considerar necessárias, inclusive a substituição da equipe por outra associação membro.
Em caso de ausência iraniana, a tendência seria a vaga ficar com outra seleção asiática. Atualmente, oito equipes do continente estão classificadas para a primeira Copa do Mundo com 48 participantes. Uma nona ainda pode se garantir, caso o Iraque vença a repescagem intercontinental contra Bolívia ou Suriname, marcada para 31 de março, em Monterrey, no México.

Irã está no grupo G da Copa do Mundo, junto com Bélgica, Egito e Nova Zelândia
Há precedentes?
Boicotes já ocorreram em Jogos Olímpicos — como em Moscou-1980 e Los Angeles-1984, durante a Guerra Fria —, mas não há caso equivalente em Copas do Mundo.
Em 1950, algumas seleções classificadas desistiram por motivos distintos. A Turquia alegou razões financeiras. Já a Escócia havia condicionado sua participação à conquista do Campeonato Britânico de Seleções de 1949/50. Como terminou em segundo lugar, atrás da Inglaterra, optou por não disputar o torneio.
Em outra situação envolvendo conflito armado, a Iugoslávia foi substituída pela Dinamarca na Eurocopa de 1992, duas semanas antes do início da competição, devido à guerra nos Bálcãs. A seleção dinamarquesa acabou campeã.
Desde fevereiro de 2022, clubes e seleções da Rússia estão suspensos de competições internacionais organizadas pela FIFA e pela UEFA, após a invasão da Ucrânia.
*Com informações da AFP
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